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A coisa que mais me irrita

A coisa que mais me irrita

19
Fev19

O grande Ambrose Bierce

PV
"Cristão, n. Aquele que acredita que o Novo Testamento é um livro de inspiração divina, admiravelmente adequado às necessidades espirituais do seu vizinho.Aquele que segue os ensinamentos de Cristo, na exacta medida em que não sejam incompatíveis com umavida de pecado."

(Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo)
19
Fev19

tão-tão-tão e tem-tem-tem

PV
A coisa que mais me irrita são as tão-tão-tão e os tem-tem-tem. Embora não obrigatoriamente, as primeiras abundam no sexo feminino e os segundos no masculino.

 

Aos tem-tem-tem um amigo meu costuma chamar-lhes "os Escrituras". São indivíduos que, logo que lhes damos oportunidade, desfiam o rosário de propriedades e outros "teres" e "haveres". Em regra não se trata de grandes investimentos - embora se possa referir o "fundo" que o gerente do banco lhe aconselhou ou o "ótimo negócio" da compra e venda do terreno. Trata-se, outrossim, do gordo resultado da acumulação e do herdado. Refere-se, com magnanimidade, a "casa na Manta Rota" ou "o apartamento em Vila Moura", a vivenda na Aroeira ou na Charneca da Caparica "para os fins de semana", "para se estar à lareira" ou "junto à praia", como cantava o Cid, embora ele falasse na cabana. Exibe-se, sem lata nenhuma, um cartão dourado. E conclui, o tem-tem-tem, alarvemente: "você sabe lá o valor que eu ali tenho!".

 

As tão-tão-tão são um objeto mais interessante. Elas crêem, sinceramente crêem, que fazem tudo melhor do que as outras, que educam os filhos melhor que as outras, que mandam nos maridos mais do que qualquer outra nos respetivos. Conheço uma, a quem chamamos a Fatia Assumida, que declara urbi et orbi que ninguém faz o tiramisu melhor que ela.

 

No fundo, o tem-tem-tem e a tão-tão-tão, são muito infelizes. Mais do que os outros, melhor do que as outras.

 

 
19
Fev19

cinefilia

PV
A coisa que mais me irrita é a atitude daqueles que declaram não ver filmes antigos por serem mudos ou por serem a preto-e-branco.

 

Já o grande Bénard da Costa estranhava as pessoas que, pura e simplesmente, não viam filmes "do tempo da maria cachucha", fenómeno que só acontece com o cinema: em regra pode ler-se Homero mas já não se quer ver D. W. Griffith.

 

Quanto ao mudo e ao preto-e-branco: como se não houvesse mais som em Murnau do que na barulheira em Dolby 7.1 ou mais cor no velho Ford do que no Technicolor (que também já deu o que tinha a dar).
18
Fev19

Católico

PV
A coisa que mais me irrita é o reflexo condicionado de certas pessoas sempre que se fala da Igreja Católica. A propósito da recente polémica da isenção  de impostos à Universidade Católica, o mata-frades do costume logo brama contra o "privilégio", esquecendo todas as demais isenções a instituições sem fins lucrativos e desconhecendo completamente o modo de funcionamento (solidário, redestributivo) da UCP.
Mas a questão é mais funda. É o facto desta universidade ser "católica".
Católico é, para o nosso mata-frades atual,  sinónimo de poderosa maquinação para enganar e roubar o ignorante. Claro que com o papa Francisco - nova paixão da nova esquerda - o caso muda de figura. Mas permanece este velha igreja dos privilégios, que resiste a Francisco, visto por esta esquerda como apóstolo de socialismos e vanguardas várias.
Já o budismo é um poço de virtudes, embora o Dalai Lama seja um teocrata desapossado. Já o Islão tem de ser compreendido na sua verdadeira dimensão, fugindo sempre ao que está ad littera no Alcorão.  Já do protestantismo nada dizem porque largamente o desconhecem, mas é simpático porque "protestou" (contra quem? ora aí está!).

Voltarei a este tema.

PS: sou um agnostico católico, isto é,  não sei se deus existe - o mais provável é  que não - mas tenho uma visão católica do mundo e da existência humana.
14
Fev19

A ideologia

PV
A coisa que mais me irrita é a ideologia, entendida, em sentido marxiano, como falsa consciência.

Exemplos?

A direita quer exames, as Mortágua não querem exames

A direita quer chumbos, a esquerda acha que isto de chumbar é, no mínimo, nazi

A direita defende a polícia porque sim, a esquerda acha que cada polícia é um fascista

Programa para o futuro: tentar pensar fora do condicionamento ideológico








08
Fev19

pc

PV
A coisa que mais me irrita é este armar-ao-pingarelho pseudo-inclusivo que devém rapidamente fascismo linguístico. O nosso Governo não tem mais nada que fazer do que decretar que não se dizem "direitos do Homem" mas "direitos humanos" (para não dizerem que estou a mentir vejam a Resolução do Conselho de Ministros n.º 21/2019, de 29 de janeiro). Como se "humano" não viesse de... (embora há quem diga que não...). Os romanos, esses, eram sábios e distinguiam vir de homo; mas, enfim, as humanidades clássicas andam pelas ruas da amargura.

Um manual assinado pelo presidente do Conselho Europeu é um susto, convidando-nos a usar linguagem neutra, porque podemos sempre e em cada momento ofender os ofendíveis.

Quando comecei a dar aulas, em 1990, havia um texto no manual que usava, que nos falava do politicamente correto e dos danos que estava a causar à democracia americana. Levou tempo, mas chegou cá.

As sirigaitas do Bloco lá insistiram com o cartão de cidadania, mas a coisa não medrou, como queriam os manos delas do Podemos ali ao lado: ("Congreso de los diputados y de las diputadas"); mas medrou "los españoles y las españolas", "los catalanes y las catalanas". Um pateta dizia no outro dia: "todas as que aqui estamos" porque as mulheres estavam em maioria e, assim, "todas" quer dizer "todas as pessoas"!

Volta Maria Teresa Horta e todas as feministas da velha cepa - tu é que sabias! Tu defendias pura e simplesmente os direitos da mulher; esta gente farisaica defende a "ideologia de género": um fascismo!

E é tudo.

Boa noite a todos e a todas





08
Fev19

O grande Sena

PV
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de ter nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a m erda o seu anonimato;
terra - museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser's minha, não.

Jorge de Sena, A Portugal (Tempo de Peregrinatio ad Loca Infecta (1959-1969)” in 40 Anos de Servidão)


02
Fev19

a gente

PV
A coisa que mais me irrita é o apedeuta que diz, condescendente, do alto da sua boçalidade: "não se diz a gente, diz-se nós" ou então (e ficamos logo à beira de cometer um homicídio), "a gente é da polícia". A gente, mesmo, não é agente!

É a gramática, estúpido

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