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A coisa que mais me irrita

A coisa que mais me irrita

25
Abr19

25 de abril

PV

Tenho seis anos e ando na 1.ª classe.

Telefonam lá para casa de madrugada (dizem-me anos depois que foi uma conhecida cujo irmão era da PIDE).

Avisam para o meu pai não ir para Lisboa que havia um “golpe de Estado”. O meu pai diz que nunca se levantou tão rápido, dizendo “ai não que não vou, toda a vida esperei por isto!”.

Mas podia ser dos ultras, do Kaúlza. Não, não era.

O meu pai apanhou o último barco para o Terreiro do Paço. Esteve com a Escola Prática de Cavalaria todo o dia, na Praça do Comércio e no Carmo.

Lembro-me que não fui à escola. Acho que fui para casa dos meus avós paternos. Não! Devo ter ido para a outra avó, porque o avô do outro lado estava no Hospital de Santa Maria. Lembro, agora, que o meu avô Francisco entrou no hospital antes e saiu depois da Revolução: foi como aquela senhora do Good Bye, Lenin.

A minha mãe e as colegas passaram o dia a apear os retratos do Salazar e do Américo Thomaz, foram ao arquivo retirar dos processos individuais a infame Declaração 27003: “Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933 com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas” bem como a outra, bem mais antiga e absurda: “Declaro, sob minha honra, que não pertenço, nem jamais pertencerei a associações ou institutos secretos”, aquela que tinha sido alvo da célebre reação de Fernando Pessoa no já longínquo ano de 1935. Curiosamente foi a última a ser revogada, já em novembro de 1974.

Os chefes não apareceram todo o dia.

Não me lembro de mais nada. E não quero misturar o que então possa ter visto com construções posteriores. Mas vêm à minha memória imagens difusas da televisão, militares sérios, outros barbudos, na minha televisão, marchas militares. Não estavam aqueles velhos do costume, o senhor de óculos e o senhor de farda branca da marinha que eu conhecia.

Lembro perfeitamente a minha mãe a despedir-se de mim quando me deitei e me disse que as coisas tinham mudado no nosso país, que aqueles senhores velhos já não mandavam e que agora vinha a Liberdade. Depois fechou a luz. E eu fiquei a pensar. E depois adormeci.

Os meses que seguiram foram tão intensos, que cresci – crescemos – mais do que seria normal. Chamava-se, na altura, “consciência política”, expressão que desapareceu, como o “pá!”.

O meu (mais tarde) amigo Rosândio - que era motorista do Presidente da Câmara mas que também tinha a incumbência de andar a transportar a esposa deste à escola, onde lecionava, e às compras - lembrava sempre que a dita senhora lhe perguntou, aterrada, nessa manhã: “Ai senhor Rosândio, o que é que nos vai acontecer?” ao que ele respondeu: “A mim nada!”.

A coisa que mais me irrita é que se esqueça isto tudo.

 

21
Abr19

pretidão (como dizia o grande Camões)

PV

Vou para o Porto. Amo o Porto.

Vou para o barco, quero apanhar o comboio em Santa Apolónia.

No barco das 5:48 quase só há mulheres negras, daquela África originária ou daquela África que a periferia de Lisboa consente e só conhece pelas erradas razões.

Aquelas mulheres estão alegres. Aquelas mulheres conversam entre si, ora em português, ora em crioulo, ora numa qualquer língua nativa não esquecida.

As “Mais Velhas” ainda vestem as roupas de sempre, ali uma capelana, um lenço caboverdiano. As mais novas vestem-se como as moças de cá. As mais novas! As mais novas perpetuam o destino das “Mais Velhas”. Portugal não mudou o destino das mais novas.

Levantaram-se mais cedo do que eu. Os filhos ficaram, talvez na “Mais Velha” que já não trabalha, na vizinha, branca ou negra, que está ali para ajudar. Depois irão para a creche, para o jardim de infância, para a escola – que se queixará que os pais lá não vão, que não participam, que não se interessam…

O salário de miséria comprará o que puder comprar. O passe este mês ficou muito mais barato, embora haja uns miseráveis que acham isso mal, que foi eleitoralismo do Governo, que não há equidade. Malvados!

Estas mulheres estão cansadas, mas alegres, não direi felizes. São de cá, mas não são de cá. Limpam os lugares que nós sujamos, que nós visitamos azafamados, nos sítios em que vivemos no contra-horário delas. Às vezes, estão a sair dos serviços mal nós chegamos.

O seu rosto tem uma dignidade que me comove.

Sinto-as próximas. Somos o resto do Império.

Tive sorte: a minha avó mulata ou cabrita, tinha um pai branco que, nos anos 20, a recolheu, criou e educou em ambiente privilegiado. Nos finais dos anos 30 casou com o meu avô branco, também privilegiado – e que coragem deve ter sido preciso para, nessa altura, casar com uma não branca, ainda que filha e neta da burguesia regressada das colónias.

Depois foi o que foi.

Não se pode emendar o passado. Toda a descriminação positiva constrói novas desigualdades. Nada se resolve com a demagogia urbanita e muito ciências sociais pós-modernas de desconstrução permanente do relato ou com a devolução do peso colonial dos nossos museus e outros disparates que-tais. A descida do passe fez mais por esta gente que todo o discurso da esquerda bem pensante isctésica, da Nova ou dos afilhados de Boaventura S. S.

Precisamos de políticas públicas que não se encerrem no próprio projeto que as concebe – para sustento de sociólogos, antropólogos e economistas – mas que mudem, de facto, alguma coisa na vida desta gente: melhorar as condições da habitabilidade destes bairros, mudar a forma da escola pública se relacionar com o outro que não fala a sua linguagem, qualificar a polícia e explicar que existe uma coisa chamada “direitos do Homem”, vigiar as relações laborais em que estas mulheres são a parte explorada.

O resto, o que não for isto, é a coisa que mais me irrita

21
Abr19

cinefilia, II

PV

A coisa que mais me irrita é terem deixado, desde 2009, de atribuir os óscares honorários e o Irving G. Thalberg Memorial Award na cerimónia dos ditos. É ter a própria Academia a desvalorizar "as artes e as ciências cinematográficas", sobretudo numa arte em que a história tende a ser rapidamente esquecida. Tanto mais grave quando, justamente, se trata de consagrar o "lifetime achievement within the film industry".

Mas, vá-lá, deixaram aqueles slides dos que se foram e que passam compassadamente ao ritmo de palmas dos que ainda cá estão.

Aqueles prémios permitem-nos perceber quem é verdadeiramente grande e soma a isso o facto de ainda estar vivo - como a Olivia de Havilland, que é eterna (tem 102 anos).

Só coisas que me irritam e , como diz o meu primo Xico, me apoquentam!

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