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A coisa que mais me irrita

A coisa que mais me irrita

13
Mai19

Vou-me embora

PV

Vou-me embora disto.

 

Quem me quiser ver, pode encontrar-me em:

 

https://ialwayscontradictmyself.home.blog/

 

Fui

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira, Vou-me embora pra Pasárgada)

03
Mai19

Verdades que irritam os irritantes

PV

As palavras de um Mestre, infelizmente já desparecido.

“Fernando Gil - Publiquei, depois do 11 de Setembro, dois artigos de opinião no Diário de Notícias. No primeiro falo de Durban, observando que se pretendeu aí algo de extraordinário, admitir a possibilidade de abolir o passado (a única coisa fora do poder dos deuses segundo Aristóteles) pedindo-se reparações pela história da colonização. Se tais reparações fossem feitas (isto é, pagas), poder-se-ia partir de novo, como se não tivesse havido história. Vê bem que isto está directamente em relação com a "busca" de fundamentos de uma nova soberania, aqui a soberania da própria ordem internacional no seu conjunto, compreendendo quer os antigos países colonizadores quer os países ex-colonizados. O raciocínio subjacente é mais ou menos este: os estados ocidentais deslegitimaram-se em virtude do colonialismo (proposição sem sentido) e roubaram aos povos colonizados a sua soberania (proposição verdadeira - para dizer depressa).

A recuperação da soberania perdida do ocidente (proposição sem sentido) deve, pois, obter-se mediante o pagamento de reparações (conclusão falaz) que equilibrarão o mal feito proposição absurda e no limite self-defeating). Mas sei bem que a lógica é uma preocupação menor de quem avança este raciocínio - naturalmente ninguém o fez tal qual. No segundo artigo, faço uma alusão aos nossos amigos intelectuais que, num processo para mim incompreensível de autoflagelação e expiação (usei a palavra Selbsthass), me trazem ao espírito a frase terrível de Aragon: "J'ai la passion de trahir". Não sei se Aragon respondia a La trahison des clercs de Julien Benda, que reli há pouco tempo. Deixou-me melancólico verificar (tinha-me esquecido) que os clercs contra quem Benda escrevia se situavam à direita.”

03
Mai19

a escola

PV

Um dos erros mais frequentes da sociedade hodierna é considerar que, por ser democrática - e por não se conceber viver, hoje, numa sociedade que o não seja - todas as instituições e formas de expressão cultural têm de assentar numa qualquer forma de legitimação democrática.

A escola não é, na sua essência - que não se reduz à sua "administração, gestão e organização" - democrática.

A atribuição de um prémio literário ou artístico ou a simples apreciação estética não assenta num qualquer sufrágio democrático. 

A organização interna de um clube ou de uma igreja (ou mesmo de um partido, mas aqui com especiais cuidados), a que se pertence livremente e de que se sai de forma igualmente livre, não tem de reproduzir todo o protocolo democrático exigível para a relação do Estado com os cidadãos.

Este erro é altamente pernicioso em si mesmo e também pela sua larga difusão, tendo-se apoderado, literalmente, do argumentário popular e ideológico contemporâneo.

A sociedade é e deve ser democrática, não só na exata medida em que "o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas do maior número de cidadãos " segundo o enunciado de Túcidides (II, 37), mas também porque a sociedade se dotou de um sistema de "checks and balances" para aquilo que é comum a todos. Tal sistema, assumido na versão continental da separação dos poderes ou na versão anglo-saxónica da supremacia do Parlamento e da rule of law visa assegurar as liberdades individuais, protegendo-nos da «ditadura da maioria». Aquilo que é comum deve ser do interesse e da participação de todos. E à objeção antidemocrática de que o poder envolve um saber que não está ao alcance de todos deve ser devolvida a noção de que a decisão sobre aquilo que é comum deve ser propriedade plena do detentor do sensus comunis, isto é, do povo e a ideia (popperiana) de que a democracia não serve para colocar no poder os melhores, mas para retirar do poder aqueles que já não nos interessam.

Nada no princípio democrático obriga a que, numa sociedade democrática, todas as instituições e formas de expressão devam ser, ipso facto, democráticas. Por muito que almas caridosas o reclamem, a escola, por exemplo, não é nem deve ser democrática. Uma escola é o lugar da transmissão - palavra que arrepia os cabelos aos "pedagogos" -, da translatio studii da tradição e dos saberes. Transmitem os que sabem, isto é, os mestres que são, em regra, os mais velhos. Assim, uma escola não é democrática mas, pelo contrário, é e deve ser aristocrática e gerontocrática.

Nela devem mandar os professores, porque sabem e apenas na exata medida em que sabem. Os mais novos, os alunos, são os que não sabem e que, por definição estão aptos para o saber. Tal posição em nada os diminui, antes pelo contrário: liberta-os para o saber. Os projetos educativos, os planos de atividades e os regulamentos internos das nossas organizações escolares deviam assentar nesta evidência. Mas eu sei que não é assim. Eu sei que se valorizam os «saberes» que as crianças e alunos já "transportam", mesmo que tais saberes sejam paupérrimos e redundantes. Eu sei que a transmissão é uma palavra sem valor no mercado pedagógico. Eu sei que a ideia do professor como instância do saber e, portanto, do poder está fora de moda. Eu sei que assumir que a escola e a sala de aula não são nem nunca foram democráticas simplesmente porque não podem ser tal, não tem direito de cidadania nos tempos atuais. Hélas!

Coisas que me irritam tanto…

03
Mai19

o exterminador implacável

PV

Hoje num transporte público em Lisboa, duas jovens universitárias conversavam animadamente sobre a «vida académica» até que, de repente, uma, muito maçada, pergunta à outra: «Mas porque raio é que temos de estudar Direito Romano?»

Isto irrita-me tanto!

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